Aí ... mas de que serve imaginar Regiões onde o sonho é verdadeiro Ou terras para o ser atormentar ? É elevar demais a aspiração, E, falhado esse sonho derradeiro, Encontrar mais vazio o coração. Fernando Pessoa, in Soneto XXXIV

SUBLIME ESSÊNCIA

O sol espreita pelas vidraças e deixa umas restes nos cantos dos quartos, e as sombras contrastam com os silêncios que gritam pensamentos.
Madame Marie sentada no sofá lê o livro “A Vida Para Além Da Vida”.

-Já o leu? Pergunta-me ela.
-Sim, li.
-Acredita no que está aqui escrito.
-Acredito.

E com os olhos fixos naquele olhar onde bailam um amontoado de imagens deixo que os gestos que levo, introduzam de novo palavras no silêncio desta leitura...

Tento lembrar-me de algumas passagens.

E ao sair do quarto transbordo pensamentos para o exterior e num falar por falar, digo:
- Aprenda bem o que está aí escrito e quando precisar estou aqui para ajudar....

-Ajuda-me?

Quando estiver na hora chame por mim respondo-lhe

-A conversa ficou-se por ali e de pálpebras caídas sobre aquele cenário
Dilui-me nas tarefas que devia fazer...
Deixei o quarto, as sombras e os silêncios apenas levo para o exterior a promessa de voltar para ajudar.

Tento construir as passagens mais importantes do livro na minha memória.

Mais tarde desfolhando-o... amontoei imagens e factos que ficaram no meu subconsciente.

O tempo foi passando e Marie foi caminhando para o último acto da sua vida,
Lia muito, ia fazendo perguntas em que tantas vezes as respostas eram encontradas por ela mesma

Chegou o momento em que se revelam os mais íntimos ângulos de cumplicidade...

Marie tinha entrado em coma vigile e a minha promessa de a ajudar a não morrer só mantém-se.

Era a hora da passagem do turno, tinha acabado de fazer a noite, tinha estado a acompanhar Marie.

Tínhamos conversado, não acreditava em Deus acreditava num mundo em constante evolução,
Disse-lhe para não ter medo, para fazer o que leu no livro e que quando quisesse partir que me chamasse que eu viria acompanhá-la nos últimos instantes.

Iríamos reconstruir ao vivo as páginas do livro...

Todos sentados, médico, enfermeiros, auxiliares, psicóloga, voluntários e outros membros da equipa assistíamos á passagem das ocorrências passadas durante a noite.

Num espaço redimensionado de alguns segundos subiu em mim uma profunda emoção e uma verdade vinda através das portas vidradas, silenciosa e apenas sentida por mim... “A promessa”

Marie chamava por mim no silêncio da minha alma precisava de ajuda. Ninguém ouviu, não havia nada de real apenas um sentir do outro de alma a alma.

Pensei, para este momento ...Esta ocorrência não entrava no protocolo.
O agora? As minhas certezas e a minha própria verdade...

Sim, sei que ela está para dar os últimos suspiros.
Que vou fazer abandonar a sala? Uma luta de preconceitos na minha consciência.

Mas uma mão invisível parece ter instalado uma desordem nesta passagem de turno e todos falavam ao mesmo tempo. Seria o vento?
Eram um barco que apeava mas parava apenas um pouco.

Saio da sala, aproveito da confusão instalada e fui fazer companhia a Marie.

Peguei na mão dela e disse-lhe que estava ali que não estava só.
Os dedos dela começaram a abandonar a minha mão e eu vi naquele abandono que o seu corpo começou a adormecer devagarinho enquanto uma lágrima tentava percorrer o meu rosto

Um ritual duma partilha do aqui e agora no ultimo suspiro...

A outra margem espera por ela.

Pela porta envidraçada fiz sinal ao médico que viesse.

Veio muito rapidamente alguns segundos depois de chegar fez uma festinha no rosto de Marie e ali connosco o rio das emoções continuou a avançar e Marie passou para a outra margem.

Aquele rosto apagou-se...
O médico foi-se embora em silencio e eu fiquei apenas mais alguns minutos.

Esta história verdadeira é para mim uma recordação, um sonho do Universo que fica desenhado para sempre na minha memória



A passagem do turno continuou



Quando chegámos, eu e o médico anunciámos que Marie tinha partido...



Logo de seguida sinto que Madeleine está a fazer as malas e anuncio á equipa...



Era como que dentro de mim morassem sons e palavras, uma musica e compassos que marcassem os tempos.



Denise pergunta-me se quero que ela vá ver.



-Sim vai, ela precisa de ti.



 A auxiliar deslocou-se ao quarto e na verdade Madeleine despediu-se em companhia de Denise a auxiliar.



E se algumas palavras ficaram por dizer eu digo-vos que os silêncios falam todas as línguas...










































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