sábado, 5 de junho de 2010


Aí ... mas de que serve imaginarRegiões onde o sonho é verdadeiro Ou terras para o ser atormentar? É elevar demais a aspiração, E, falhado esse sonho derradeiro, Encontrar mais vazio o coração. Fernando Pessoa, in Soneto XXXIV


AS RÃS DESCEM AO CHARCO

Recantos com luz deram sinal de intensidade, e dos charcos mais recônditos ouve-se um cantar especial.
São as rãs, na sua clandestina passagem que descem pelo canal,
E tudo pára, até a simples brisa se espanta e o sol esmorece, apenas as rãs….e o seu cantar.
E o pensar?...Um labirinto de pensares …Pois é?... a vontade…mas ela é algo que se constrói, desmoronou-se, não porque não era de ferro mas porque não há princípios.
Enternecedores e espectaculares pensamentos morrem. Mas no charco há vida, há cantares…Como chorarão as rãs?

Hoje, as histórias ficaram-se sem valor, porque o sentimento mudou, o sentir mudou… mas não sinceramente o ser no Ser ele está lá e está integro.
Mistério dum presságio…Debruçada sobre este charco ia pensando, á maneira enredada dos pensadores do nosso povo.
Pobreza deste povo tão rico…Sonha-se a riqueza, vive-se a pobreza, ilude-se a mente trocam-se os passos, não se olha a meios nem a fins, programam-se objectivos subjectivos ignora-se porque é assim…
Ai se eu soubesse escrever este cantar, este chorar… este charco, e esta vida, mesmo que fosse apenas o charco. Não sei…
Incidências escandalosas… rãs a gritar num charco… “rãs a chorar num charco”
Escrevo com os olhos fechados para não ver a fugacidade das palavras, nem sei o que escrevo porque dentro de mim há uma tal riqueza de palavras um tal mistério de dúvidas como um rio que corre, como um livro que se desfolha para ler o fim.
Deslizar de caneta, frases soltas… vazio… e tudo se vai com esta tinta vertida…tudo ….
E as rãs finalmente cantavam? Choravam? Elas gritavam.
Não sei discernir este mistério das rãs… um charco é um charco.
E mais além, alguém pensa que tudo isto nada é, nada vale, que são apenas rãs, é apenas um charco, mas o luar que paira sobre a água dá sombras que dançam. e eu vejo-as e eu sinto-as…
Se as rãs fossem gente?
Utilia